lições de cuidado de pele

Fiz uma bela asneira com a minha pele, esta semana, e por isso agora tenho a testa a arder, e a cara cheia de manchas ásperas e dolorosas.
O que me lembrou de que vos estou a dever um vídeo sobre cuidados de pele, e que era bom partilhar as lições que aprendi com o tempo – e que parece que me esqueço de cumprir.

Esta é a minha colectânea de experiências pessoais — não sou dermatologista, química ou esteticista. Leio e vejo vários deste tipo de especialistas e nem eles concordam em tudo. Portanto tento encontrar um meio-termo de entre toda a informação — não o que me dava jeito que fosse verdade, mas algo que faça sentido com as minhas vivências.

1. É tudo culpa da genética

É só lotaria de pele… Há pessoas que passam pela vida com uma pele fantástica sem terem de fazer nada para que isso aconteça, outras (como eu) que fazem de tudo e a coisa não se dá. Há até aquelas que fazem tudo o que é “errado”: esfoliantes de caroço de alperce e de grãos de café, máscaras de sumo de limão, usam toalhitas e só compram cremes hidratantes que não têm nada nos ingredientes a não ser perfume.

A única consequência que pode vir a apanhar essas pessoas são os danos por exposição solar. E mesmo assim.

Isto basicamente quer dizer que a vida é injusta e não há verdades absolutas, apenas algumas orientações que, para mim, devem ser baseadas em informação científica.
— A única verdade absoluta que poderia admitir é o clássico: o que funciona para uns não funciona para outros. E pronto.

2. A fórmula é a glória ou a queda do produto

Não é só porque contém um ingrediente específico. É a combinação de todos os ingredientes dentro de um produto.

É um pouco como termos farinha, ovos, açúcar, leite e manteiga. Podemos fazer panquecas, podemos fazer um bolo, podemos fazer bolachas, ou podemos só fazer asneira.

Portanto, alguns produtos podem ter listas de ingredientes semelhantes, mas uns serem más fórmulas, outros serem uma poção mágica. Não sabemos a receita completa.

Ler rótulos e listas de ingredientes ajuda, mas não nos está a dar a informação toda.
A fórmula é a rainha.

(se baterem as claras em castelo, ficam com panquecas mais fofinhas)

3. Podemos ser sensíveis a qualquer coisa

Não necessariamente ao ingrediente-destaque, ou ao princípio activo.

Há tantas peças em movimento que podem tornar um produto no nosso Santo Graal ou no nosso maior inimigo: um ingrediente (activo ou não), a concentração do ingrediente, a fórmula, a quantidade que se usa, a frequência com que se usa, quão sensibilizada está a pele de outros produtos que possamos estar a usar.

Passei imenso tempo da minha vida a pensar que não podia usar niacinamida, por causa de um serum que usei e me provocou (mais) borbulhas. Mais tarde, usei um creme com uma concentração menor de niacinamida e correu tudo bem. Só pode ser da percentagem, certo? Algumas concentrações são demasiado fortes para algumas peles. Mas no meu caso, não. Tentei outro serum de niacinamida com uma concentração semelhante e a minha pele adorou. Tinha a ver com a fórmula, a forma como todos os ingredientes foram combinados.

Uma amiga minha fica com borbulhas quando usa manteiga de Karité. Manteiga de Karité! É um excelente oclusivo, mais do que investigado e testado e considerado um óptimo ingrediente, sem consequências negativas para a pele. Mas a minha amiga não pode usar nada com esse ingrediente. Isto torna a manteiga de Karité no demónio? Para a minha amiga, sim. Para a maioria das pessoas, não.

4. Ter uma rotina-base é essencial

Lavar (duplamente, se for à noite), hidratar (com humectantes), usar oclusivo (creme hidratante), e SPF durante o dia.

Estes são os passos básicos para todas as pessoas. É daqui que se constrói uma rotina mais complexa, e é aqui que se regressa se algo corre mal.

Se houver problemas com um novo produto, é a esta sequência que devemos recorrer, voltando ao núcleo essencial de cuidado de pele.
Portanto convém assegurarmo-nos de que todos os produtos que usamos nesta rotina são à prova de tudo para a nossa pele – sabendo que às vezes a pele muda e algumas coisas deixam de funcionar, claro.

Depois podemos adicionar os ácidos e os passos de tratamento, que podem ser ajustados às necessidades e preocupações de cada um. E são também os passos em que a maior parte do pessoal se estica – mais sobre isso daqui a pouco.

Uma rotina de cuidado de pele pode ser tão extensa quanto se queira, até para lá dos 10 passos das famosas rotinas Sul Coreana e Japonesa. Tem muitas combinações e iterações possíveis, mas a ordem-base é mais ou menos assim:

Limpeza (dupla, se for à noite), esfoliar (normalmente com ácidos), várias camadas de essências e hidratantes líquidos, tratamento (com serums de activos), oclusivo (creme hidratante/óleo), SPF durante o dia.

5. Às vezes um pano, às vezes as mãos

Adoro remover o meu cleanser com um pano húmido morno muito macio, e é o meu método mais usado. Mas se a minha pele estiver de alguma forma mais sensível, sei que o pano pode ser forçar demais.

Tenho opções: usar o pano na primeira limpeza e as mãos na segunda (emulsificando o produto com água e enxaguando depois), ou usar as mãos em ambas.

Ter um bom cleanser ajuda, porque não preciso de ter um para cada método. Um bom creme, bálsamo ou óleo que emulsifique praticamente trata de tudo. E um cleanser em gel sem sulfatos para dias mais oleosos (os sulfatos secam-me demasiado a pele).

6. Textura é uma pista, mas não uma regra

No geral, devemos usar os produtos da consistência mais fina para a mais espessa, primeiro produtos à base de água, depois à base de óleo.

A maioria dos produtos são formulados para indicar em que fase da rotina devem ser aplicados.
MAS também depende do nosso objectivo.

Por exemplo, há ácidos que vêm em forma de creme com silicones, criados para serem usados como um dos últimos passos da rotina, em vez de logo a seguir à limpeza.
Por outro lado, uma vitamina C é mais eficaz quando aplicada na pele limpa, mesmo as que vêm em bases de óleo…

7. Só tenho uma cara

Há muitos produtos dedicados a um problema específico, muitas abordagens diferentes…. muitos influencers de pele perfeita a publicitar produtos….

é tentador encher o carrinho de compras, especialmente com marcas como a The Ordinary e a Inkey List e os seus produtos minimalistas com um ou muito poucos ingredientes activos.

  • ou temos mais do que uma preocupação que queremos adereçar e acabamos a comprar produtos para todos esses problemas;
  • ou queremos tratar um problema específico, mas há tantos ingredientes e produtos que dizem que tratam disso que… temos de os apanhar a todos.

É parar e pensar: só temos uma cara. mais vale experimentar um produto de cada vez. Isto permite dar-lhe tempo para fazer efeito e ver se está a funcionar connosco. E evitar desperdício.

Portanto, antes de “adicionar ao carrinho de compras”, convém saber de antemão em que parte da rotina vai entrar o novo produto, em vez de comprar só porque sim e depois logo se vê.

8. Camadas e misturas

Obviamente que podemos sobrepor vários produtos. A maioria funciona perfeitamente em conjugação com outros, independentemente da marca. É só ter atenção á consistência para as camadas terem o máximo de eficiência: do mais fino para o mais espesso, primeiro os à base de água, depois os à base de óleo (excepções aplicam-se. sim, eu sei que é irritante).

Ter um produto, como um serum, com vários ingredientes que se complementam e que fazem várias coisas é uma opção mais segura porque foi formulado por especialistas para os ingredientes funcionarem em conjunto. e é mais rápido numa rotina.

Mas há muitos produtos só com um ingrediente activo que se sobrepõem lindamente. É aconselhável pesquisar a combinação que queremos fazer para ter uma ideia de se os ingredientes fazem a sua parte e não interferem no trabalho dos outros, se aumentam as capacidades uns dos outros (o que pode ser o que queremos, ou demasiado), ou se se diluem (o que, mais uma vez, pode ser o que queremos ou só uma desilusão e depois achamos que aquilo não funciona). Mas isto também depende das fórmulas, que não conhecemos.

Eu não sobreporia mais do que dois activos, especialmente de manhã e especialmente se forem marcas como The Ordinary e Inkey List, porque os produtos tendem a enfarinhar-se e fazer bolas, com a mais leve fricção.
Além disso, alguns activos criam sensibilidade à luz, outras combinações deixam a pele sensível, por isso não confio em combinar uma data de activos mais agressivos.

Misturar é óptimo, se tivermos noção de que vamos automaticamente usar menos de cada produto. Se for esse o objectivo, está ganho.
Eu gosto de misturar óleos nos meus cremes hidratantes para os tornar mais ricos, ou um tónico hidratante no creme para o tornar mais leve.

Se é útil ou um desperdício de produto, depende de cada pessoa.

9. Um produto novo de cada vez

Isto é especialmente difícil para quem é viciado em produtos de cosmética, como eu.

Se introduzirmos mais do que um produto de uma vez e depois tivermos uma má reacção, não vamos conseguir perceber qual é o culpado, ou se foi da combinação dos dois.
Por outro lado, também não vamos conseguir perceber qual é o produto que está a fazer aquele milagre espectacular pela nossa pele.

10. Activos: começar devagar

Sabemos que a concentração de cada ingrediente pode influenciar imensamente a forma como a nossa pele aceita o produto. Os ácidos e retinóides não são todos iguais. Alguns são tão suaves na pele que achamos que não estão a fazer nada.
Muitas marcas também não são claras quanto á concentração dos activos nas suas fórmulas, mas normalmente a frequência de uso aconselhada dá uma pista para a intensidade do produto.
Isto não quer dizer que devemos começar à bruta. Especialmente com activos intensos como o retinol, ácidos esfoliantes e vitamina C e seus derivados, e ainda mais com marcas que nunca experimentámos.

Convém introduzir um novo produto activo na rotina lentamente, mesmo que no rótulo diga para usar todos os dias.
Começar a usar uma vez por semana, ver o que acontece. Se ao fim de duas semanas estiver tudo bem, passar a usar duas vezes por semana, e por aí fora. Aumentar lentamente a frequência de utilização dá à pele tempo para nos dar sinal quando já for demasiado.

Há quem não consiga usar um activo específico diariamente, mas isso não quer dizer que não possam tirar proveito dos seus benefícios com uma utilização mais espaçada, desde que continuada. Ou talvez escolher algo com o mesmo activo, mas numa concentração menor, formulado em óleo, ou até diluído com um creme hidratante.
Pode conseguir-se os mesmos resultados de uma forma mais lenta – e se calhar com menos efeitos secundários desagradáveis.

— Mais não quer dizer melhor. Mais às vezes só quer dizer que agora vais ficar com a testar tipo areia, a arder e cheia de comichão durante uma série de dias, porque achaste que isto não se aplica a ti e que a tua pele aguenta tudo… Ser arrogante e inconsciente não é a resposta.

11. Gerir as expectativas

Um tratamento demora a começar a mostrar resultados. Até 3 a 6 meses, se for para algo profundamente arreigado na pele como acne, hiper-pigmentação e sinais de envelhecimento.
Claro que cleansers, hidratantes, e oclusivos mostram resultados mais imediatos, porque têm uma função mais imediata e superficial.

Mas resultados visíveis e duradouros tomam o seu tempo. Não se pode desistir de um produto só porque se passou uma semana e não aconteceu nada.

Além disso, há que discernir se precisamos de ajuda de um profissional. Algumas coisas precisam de muito mais do que o que podemos fazer em casa com cremes. De acne grave a fillers, a peels agressivos e outros tratamentos clínicos.

12. Nada vale danificar a barreira protectora da pele

Com um ácido, um ligeiro formigueiro temporário é ok, mas sentir queimar não.

Com qualquer outro produto, até o formigueiro pode ser causa de preocupação.

Se está a arder na pele, e não estão no gabinete dum dermatologista a fazer um peeling clínico, não “está a funcionar” e não têm de “aguentar”.

É lavar a cara imediatamente e encontrar uma nova casa para o produto. Pode sempre dar-se-lhe uma segunda oportunidade passadas umas semanas, quando a barreira da pele tiver recuperado, mas convém ter em conta que provavelmente aquele produto pode ser incompatível com a pessoa.
— se possível, convém informar a marca do que se passou. pode ser um caso isolado em que aquela pele em específico não gosta daquele produto, mas também pode ser um padrão.

Quando tenho uma reacção esquisita tipo erupção cutânea, lavo a pele com água morna ou fria, usando só os dedos para evitar mais abrasão, uso um bálsamo reparador sem qualquer tipo de fragrância ou óleos essenciais, tomo um anti-histamínico e, claro, mantenho a pele protegida do sol.

O mesmo serve para os efeitos secundários agressivos de retinóides mais potentes, como a pele muito seca e a escamar. Não são “o sinal de que está a fazer efeito”. Pode acontecer, como parte do processo de retinização, mas não acontecem a toda a gente e não temos (nem devemos) passar por eles para conseguirmos os efeitos benéficos da tretinoína ou outro retinóide forte. Há formas de atenuar a fase retinização sem perder a eficácia do produto a longo prazo. Além de que, assim a pele ficará demasiado sensibilizada para prosseguir o tratamento, de qualquer forma.

Nunca se deve comprometer a barreira protectora da pele, porque isso significa que estamos a criar danos profundos na pele. E teremos de parar com qualquer tratamento (voltando à rotina-base) até tudo estar normalizado, o que desfaz o trabalho conseguido até então. O mais importante é que a pele esteja confortável com os tratamentos, para conseguirmos continuidade.

Pode-se “almofadar” o activo com um creme hidratante neutro, usar-se com uma frequência menor, ou mudar para algo com uma menor concentração, com base em óleo – que de alguma forma seja mais suave para a pele.
Para mim, o ideal é começar devagar e com concentrações baixas e ir aumentando frequência e depois concentração, em vez de saltarmos logo para o tubo de tretinoína porque é o que toda a gente está a fazer.

13. Adaptar o uso aos objectivos

Conseguem-se efeitos mais potentes (e por isso potencialmente mais agressivos) aplicando o activo directamente na pele limpa, ou logo a seguir a um ácido esfoliante.
Efeitos mais suaves são conseguidos aplicado uma camada de protecção antes do activo.

Agora a decisão é de cada um: em que é que precisamos dos efeitos mais fortes, em que é que são melhores os mais lentos.

Pessoalmente gosto de usar hidratantes e activos ligeiros na pele acabada de limpar, mas “almofado” sempre a tretinoína com bastante creme hidratante.

14. Há método nas camadas

Se uma marca diz para não se misturarem dois dos seus produtos, não se misturam os dois produtos. Mas isso não quer dizer que não se devem sobrepor ou misturar TODAS as fórmulas que contenham aqueles activos. É só uma regra para aquelas fórmulas específicas.

Há que ter a certeza de que a pele está absolutamente confortável com um activo antes de se começar a usar outro na mesma rotina.

Por exemplo, se estamos a usar retinóides, convém já ter atingido o planalto da utilização e frequência desejadas há umas semanas, antes de se adicionar um ácido esfoliante, ou uma vitamina C, ou o que seja, na mesma rotina.

E também convém ter a certeza absoluta de que precisamos mesmo de usar todos esses activos numa só rotina…

— há informação de que certos activos precisam de um determinado pH para funcionar, ou de que precisam de fórmulas com base em água ou óleo para estarem no seu estado pleno, o que por isso os tornaria incompatíveis com outros produtos com pH ou bases diferentes. Por outro lado, parece que há marcas que estão a desdizer estas informações constantemente, ao criarem produtos que tecnicamente não conseguiriam funcionar juntos porque assim não estão estáveis.

Como não somos de engenharia química e não há informação fácil de obter acerca disto, a forma mais fácil de usar dois activos que possam ser incompatíveis é dar algum tempo entre a aplicação de cada um, para que a pele tenha tido tempo de os absorver.
Também ajuda saber que o pH da pele é mais baixo quando se usam ácidos esfoliantes, e que quando se usam tónicos hidratantes começa a regularizar. Portanto, um produto de pH baixo deveria, em teoria, seguir-se ao ácido.

15. Alternativas à sobreposição

Porque nem todos podem ou querem sobrepor produtos na mesma rotina.

Pode sempre alternar-se activos diferentes entre manhã e noite, e também em noites diferentes. Não tem de ir tudo ao mesmo tempo, até porque há um limite para o que a pele consegue absorver, e pode haver potenciação de irritação.

Por exemplo: Segunda, Quarta e Sexta – Niacinamida; Terça, Quinta e Sábado – Retinol; Domingo só hidratação e oclusivos com Omega 3 e Ceramidas.
De manhã, alternar Vitamina C e, a cada 3 dias, ácidos esfoliantes.

Só não podemos esquecer-nos de, mesmo assim, introduzir um activo novo de cada vez.

16. Adaptar às necessidades da pele

às vezes há mudanças devido ao clima, níveis de stress, hormonas, algo que se comeu…

A pele precisa de consistência, mas também precisa de flexibilidade para percebermos quando é preciso adaptar os cuidados a necessidades diferentes que entretanto tenham surgido.

O mais básico são as mudanças de estação. É natural precisar de um regime mais leve para os meses quentes e de suor e maior oleosidade, e um mais rico para meses de frio e ar seco.

Também se pode pensar em alterar a rotina para haver mais protecção anti-oxidante quando está sol, e mais retinóides/mais fortes no inverno, quando há menos luz, e, portanto menos probabilidade de haver mais fotossensibilidade.

Mas também devemos ter em conta adaptações a outras mudanças na vida, sejam imediatas ou a longo prazo. Aquilo de que a pele precisa aos 20 não é o mesmo que a pele precisa aos 40.

17. os meus activos não têm fragrância

Gostemos ou não, a fragrância (natural, que inclui óleos essenciais, ou sintética) não traz qualquer contributo à eficácia do cuidado da pele. Está lá para dar uma ilusão de uma experiência que associamos ao luxo. Cheira bem.

E está provado que, em graus diferentes, pode causar sensibilização imediata ou a longo-prazo da pele. Um pouco como os danos do sol, podem não se notar os efeitos negativos na pele imediatamente, mas estão a acontecer e a lentamente degradar as defesas naturais da pele, podendo torná-la muito reactiva ou até atópica.

Activos como ácidos esfoliantes, vitamina C, retinóides, e até ácido azelaico e niacinamida, são formulados para penetrarem profundamente na pele e provocarem reacções, o que de si pode tornar a pele sensível, mesmo que só a um nível microscópico.
Não me agrada a ideia de imaginar um conhecido agressor da pele que não tem qualquer efeito na fórmula excepto fazê-la cheirar bem a entrar juntamente com os activos para as camadas mais profundas da minha pele, potencialmente tornando-a mais susceptível.

Eu tenho a minha dose de luxo: quando a minha pele está saudável uso alguns cleansers que cheiram lindamente (como não são feitos para ficar na pele, não há problema), e às vezes também cedo num creme hidratante ou SPF — que, como são feitos para ficar mais à superfície, e vêm depois de algumas camadas de outros produtos, não me intimidam tanto.

Posso abrir excepções de vez em quando a esta minha regra, mas tenho-me apercebido do quão melhor a minha pele está quando uso cuidados de rosto sem fragrância.
Há quem diga que isso é uma experiência sem alegria. Eu cá acho que isso será para uns privilegiados sem problemas de maior. Para mim, a maior alegria é ter a pele saudável e forte.

18. Preço nem sempre define qualidade

Há ingredientes muito básicos que são o alicerce de uma grande maioria de fórmulas.

Glicerina e água são básicas, mas são essenciais. Até o óleo mineral, um ingrediente nada sofisticado, é um oclusivo perfeitamente decente se não se tiver tendências acneicas.
Não ligo nenhuma, no entanto, a produtos com preços exorbitantes que depois só contêm estes ingredientes básicos, mais uns daqueles que não têm qualquer pesquisa científica a comprovar a sua eficácia, mais um logotipo giro (e muito provavelmente fragrâncias e óleos essenciais).

Embalagens brilhantes não tornam o produto brilhante…

19. Protecção Solar não é opcional

Não há excepções. FPS 50+ de largo espectro, sempre que há luz do dia.
Com exposição solar moderada a intensa, reaplico a cada duas horas. Isto tem a ver com o índice UV, e com a quantidade de tempo que vou estar directamente exposta ao sol. Se estou no interior mas as janelas são grandes, conta como exposição intensa.
Uso factor 30 se vou estar dentro de casa e está escuro/nublado lá fora, mas é só.
Protecção solar sempre, e na quantidade recomendada. Reaplicar é essencial, pelo menos antes de se voltar a sair.

Nem todos os danos causados pelo sol são imediatos, e alguns podem ser letais. A capacidade da pele de produzir colagénio e elastina fica debilitada.
E a hiper-pigmentação é tão difícil de esbater que prefiro que não chegue a aparecer.
Não é coisa que se note quando somos novos, mas os danos estão a ser feitos e vão apanhar-nos eventualmente.
Se querem um bronzeado, arranjem um auto-bronzeador, aprendam a maquilhar-se com bronzador.

— Se querem confiar no factor de protecção solar da base (e creme hidratante)
. a maioria das bases têm FPS 25 ou inferior, o que é insuficiente;
. a quantidade recomendada é de 1,4g por aplicação para ter a protecção indicada no rótulo, o que quererá dizer que a vossa base (30 ml) vos durará menos de um mês com apenas uma aplicação diária – a Nikkie Tutorials parece uma miúda Glossier, comparada com o nível de cobertura que é preciso usar.
. continuam a precisar de reaplicar… pois!

Se ao menos existissem uns produtos formulados para serem aplicados antes da maquilhagem, que atingissem a protecção anunciada sem dar tanta despesa, que fossem transparentes ou quase, e que depois se pudessem reaplicar com fórmulas em spray e pó…

20. Máscaras faciais já não me dizem grande coisa

Dei por mim a deixar de usar máscaras faciais. E gostava imenso de algumas. Simplesmente não encontro tempo para as usar, e percebi que, se a minha rotina de cuidado de pele for boa, não sinto que precise.

Às vezes faço uma rotina dedicada a uma necessidade especial, por exemplo começar com um ácido esfoliante, fazer várias camadas de hidratação emoliente, e acabar com um bom óleo para acolchoar a pele. Mas não preciso de máscaras para isso.

21. O conhecimento é fluido

Tenho de confiar na informação fornecida por outros para tomar as decisões o mais informadas que puder. Por isso vou fazer asneiras, vou mudar de opinião, vou aprender coisas novas, e isso é normal.

Alguns estudos estão um bocado datados, outros são tão recentes que precisam de mais aprofundamento para contarem como factos comprovados.

É um campo em evolução permanente, e é tão rentável que certas marcas podem precipitar-se para se manterem relevantes. O que pode levar a alguns lapsos de discernimento.

Estudos independentes, revistos por pares, em testes cegos, com suficientes sujeitos, por muito que custe acreditar, não são um standard. As empresas nem sempre investem em pesquisa aprofundada para comprovar a eficácia de alguns ingredientes, usando em testes iniciais superficiais e estudos limitados.

Por exemplo: a vitamina A é dos ingredientes mais estudados, mas alguns dos seus derivados nem por isso. Serão esses novos derivados melhores do que os clássicos ácido retinóico, retinol e retinaldeído? Ainda não podemos ter a certeza, porque ainda não há informação científica suficiente. Podem ser a nova grande revelação da indústria, mas falta aprofundar os testes.
Podemos experimentar os novos ingredientes que surgem, só não podemos ir na onda das declarações cegas.

Pesquisa e desenvolvimento são muito importantes. Adoro quando uma marca escolhe investir nessas áreas em vez de embalagens vistosas e viagens de marketing para influencers. Mas as prioridades às vezes estão trocadas. E uma marca indie terá mais dificuldade em lançar uma inovação tecnológica, porque pesquisa e desenvolvimento implicam muito dinheiro.

Pormenor: ter “doutor” no rótulo não quer automaticamente dizer que é uma marca de confiança absoluta (alguns nem são médicos a sério, ou doutorados em química, formulação, etc.). O termo “clínico” também não serve de nada. É só uma apropriação de marketing.

Enfim… As coisas evoluem, há sempre nova informação a sair, e não devemos ter medo de mudar a nossa posição.
Estarmos abertos a aprender coisas novas é importante, mas devemos ter noção de que às vezes podemos estar a seguir informação incorrecta. Não é necessariamente uma coisa intencional, mas acontece.
As marcas de cosmética não nos querem atacar, mas querem o nosso dinheiro, e às vezes exageram nas alegações que fazem.

Há alguns especialistas que gosto de ouvir falar acerca de cuidados de pele com uma perspectiva científica: Caroline Hirons e os seus convidados, Cyrille Laurent, Dr. Dray, Lab Muffin Beauty Science, e Kenna.
Todos têm abordagens diferentes e opiniões diferentes acerca do que é um não-não ou um sim-sim, o que é absolutamente normal em ciência (ver o primeiro e segundo pontos deste artigo, e já agora, o próximo).

22. “verde”, “limpo” e outros disparates

Experiências individuais e distorções de pesquisa científica têm criado ou evoluído em tendências que depois são irresponsavelmente apropriadas pelas marcas que escolhem usar o medo para vender os seus produtos.

Como na alegoria dos cogumelos: se um cogumelo é venenoso, todos os cogumelos são então venenosos?
Concordamos que esta afirmação é uma falácia – é tão falacioso como afirmar que todos os parabenos são maus para a saúde e disruptores endócrinos.

Até a água em excesso pode fazer mal (pesquisem o que acontece quando se bebe uma quantidade imbecil de água… não é bonito). Daí haver quantidades aconselhadas de cada ingrediente. O ácido glicólico é maravilhoso, mas não vamos agora usá-lo puro, pois não? Vamos arranjar várias versões e diluições e veículos para optimizar os efeitos bons e diminuir qualquer tipo de efeito menos bom, certo? Pois.

Posto isto, alguém achou que todos os parabenos são maus, baseado num estudo acerca de um. Depois lançaram-se numa campanha de desinformação que acabou por ganhar tanto embalo que os parabenos estão praticamente banidos da indústria cosmética: as marcas tiveram medo de perder consumidores – que estavam convencidos de que estavam a ser envenenados –, e, em vez de tentarem informá-los e bater o pé, apanharam a onda e agora quase tudo é “livre de parabenos”.
O curioso é que os conservantes usados para substituir os parabenos são, na sua maioria, mais irritantes para a pele, e foram muito menos estudados no que toca a efeitos secundários.

Há marcas que usam a palavra “químico” como se fosse um palavrão. Tudo é um químico, a água é um químico.
Se se referem a ingredientes sintéticos (adoro semântica), também convém lembrar que ninguém no seu juízo perfeito vai espremer ervas para dentro de um frasco: para se tornar bio-disponível e apropriado ao uso tópico, qualquer ingrediente tem de ser adicionado a outros, processado num laboratório e tudo isso. A menos que os produtos estejam a ser feitos numa cozinha qualquer, o que… bom, o meu nível de confiança desce…

Mais: muitas vezes a opção “natural” ou “pura” (como em não-diluída) é mais agressiva para a pele do que um ingrediente sintético que foi desenvolvido por profissionais para ser o mais eficiente e delicado possível.
Estarmos em casa a tentar adivinhar doses de óleos essenciais e óleos-base e ceras e assim, e fazermos as nossas próprias miscelâneas, é um passatempo giro para fazer coisas como sabonetes perfumados. Mas usar activos dessa forma é irresponsável. Quando nos dói um dente vamos ao dentista, não tentamos tratar da cárie na casa de banho, pois não?

Brandir palavras como “tóxico” e “sujo” é implicar que todas as fórmulas (que não aquela) são criadas para prejudicar o consumidor, para o enganar.
E depois cada marca tem a sua própria lista do que acham “limpo” ou “não-tóxico” e do que acham que faz mal. Varia conforme lhes convém, porque não obedece a nenhuma lógica.

É só uma manobra de marketing, e grandemente mesquinha e cobarde (irónico, não é?) porque aposta na desinformação dos consumidores para lhes meter medo e levá-los a fazer a compra — e em muitos casos fornecendo produtos muito menos testados ou, no mínimo, muito mais irritantes ou praticamente ineficazes.

Adoro quando uma marca constata uma coisa óbvia como sendo uma grande inovação de que só eles é que se lembraram:
“Este creme hidratante não tem sulfatos!”
Uau… e desde quando é que se usam detergentes e agentes de espuma em cremes hidratantes?

Há marcas que não reconhecem que os seus produtos não vão funcionar para toda a gente, e preferem, quando há uma queixa de uma reacção negativa, dizer que a culpa é do consumidor que se calhar está a usar um dos tais “ingredientes nocivos” em vez de usar a linha toda deles. O normal seria “lamento que não tenha funcionado para si, já pensou em usar este outro produto da nossa linha, cujos activos são diferentes?”. Mas não. É mais giro criar uma “doutrina” ou um “conceito” e tornar a compra de um creme num culto.

Portanto… se uma marca vem com a conversa do “não tóxico”, e “tretas suspeitas”, perde boa parte da minha atenção. Ou é tão bom e tão recomendado – por especialistas – que consigo ignorar os disparates, ou pois que se calhar perderam um cliente.

Se uma pessoa tem acne quando usa silicones – o que é incomum mas pode acontecer –, é normal que vá à procura de uma linha que não contenha silicones. Não é normal que ache que os silicones devem arder no inferno.

“Verde” e “Limpo” deviam querer dizer produzido de forma sustentável, com ética e consciencialização no fornecimento e na utilização de mão-de-obra, baseado em toda a ciência disponível, oferecido fórmulas que se adaptem a diferentes necessidades (versões sem fragrâncias e óleos essenciais para peles realmente sensíveis por favor), com embalagens recicláveis e inovação nas propostas de produtos reutilizáveis. Mais investimento em pesquisa e desenvolvimento, menos em marketing mesquinho e arrogante.

É importante ouvir os consumidores e as suas preocupações, ir ao encontro do que procuram, mas oferecendo soluções e informações legítimas.
Em vez de lucrar à conta da sua estupidificabilidade. Sim, estupidificabilidade. A capacidade de serem estupidificados. É uma palavra. Porque acabei de a inventar.

pronto, é isto. tudo apontado e disponível para a vossa consulta. reservo-me o direito de, seguindo o ponto 21, fazer alterações.

agora é a vossa vez de partilharem comigo as vossas regras de cuidados de pele.

2 opiniões sobre “lições de cuidado de pele”

  1. A regra que mais importante que a minha mãe me passou (para a qual cheguei a ser acordada numa noite de copos linda) foi tirar a maquilhagem antes de dormir, mesmo que estejas em zombie. Agora com o tempo o que não pode faltar aqui na rotina é limpar, tonificar, hidratar e proteger do sol – sempre SPF 50+. 🙂

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